12.12.07

Em defesa do Homem Comum.

Pascal diz que temos de medir o homem não pelo que ele faz de extraordinário, mas pelo que ele faz de comum. De fato, o ordinário é que faz o cotidiano, enquanto que o extra- é a exceção, só acontece uma vez aqui, outra acolá. Extraordinário é quem comete um só ato surpreendente. Comum é o ato que, pela insistência, pode se tornar extraordinário. O Comum tem pouca força se for feito apenas uma vez. Mas existindo só uma vez, ele também não pode ser comum. Pra ser comum, ele precisa ser repetido no cotidiano. Do contrário não seria comum, mas único. E é desse caráter de ser comum, de ser repetido, insistente, que ele extrai sua potência. É por isso que o comum tem mais valor do que o solitário ato extraordinário. Este, tem mais visibilidade do que os outros atos, mas perece em meio a sua vaidade de ser único. É preciso perguntar: o ato extraordinário é feito por outra intenção a não ser a de buscar ser ele próprio extraordinário? Se alguém tem a intenção de executar um ato extraordinário esse alguém parece estar mais preocupado com a satisfação de sua pura vaidade do que com as implicacoes éticas ou sociais que seu ato irá ocasionar. O homem comum transforma o ordinário em extraordinário ao longo de uma vida inteira. O próprio ato extraordinário é fruto de incontáveis, pequenos e invisíveis atos comuns, que o prepararam ao longo de insistentes anos. O extraordinário nao vem de um dia pro outro, nao é acaso. Ou seja, não é por acaso que extraordinário é o homem comum.

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