Sobre o sono [ou a falta dele] na infância:
Quando criança, o relógio era imagem muito mais carregada de significado. À noite, por exemplo, era a bússola que indicava a direção do tempo percorrido. Seus ponteiros indicavam não as horas, mas a distância restante. O tempo, entretanto, já naquele tempo era relativo: no sono, a noite é apenas uma; na vigília, é um despedace composto de minutos parados:
23:00. Era tarde. Me cobria com o lençol na esperança de me proteger contra o desconhecido que mora na falta de luz.
00:00. O medo do sono não visitar.
00:30. A última brincadeira na rua, os garis que riam alto ao se insultar enquanto recolhiam o lixo. Um dia brinco com eles.
01:00. A mais magnífica quietude.
01:05. Constatação de que a noite ainda duraria uns dois ou três infinitos.
01:15. Troco pela enésima vez o lado sob o qual estou deitado. Sinto as costas suadas.
03:15. Só se passaram duas horas..
04:00. O pesadelo quase no fim.
05:00. Ainda escuro, mas, daqui a pouco, o anúncio salvador dos pardais.
05:10. A qualquer momento agora...
[cinco minutos se passam e...] o primeiro a despertar se manifesta com um pio que reverbera no isolamento. Sem resposta, insiste mais uma vez.
e mais outra.
e mais outra.
e mais ou... um outro acorda. Alívio. Para mim e para ele. A resposta traz a certeza de que ambos não estamos sozinhos.
Me sinto feliz. Atravessei o deserto do tempo.
Do outro lado da última duna, o sono espera pra me levar pra casa.
20.4.10
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